sábado, 10 de setembro de 2016

“O Brasil não tem povo, tem público”.

É Lima Barreto! Já se passaram mais de um século e o que outrora observará continua valendo ainda hoje. Parece-me que nada mudou.
O autor da frase, Lima Barreto, nasceu em de maio de 1881 e morreu em janeiro de 1922 antes de completar 41 anos de vida.
Lima Barreto foi um grande crítico das injustiças sociais e das relações políticas características da república nascente, onde os “coronéis” mandavam e desmandavam, estavam acima da lei e o povo assistia, como público, a toda forma de exploração. O voto era de cabresto (referência ao burro, o animal, que pelo cabresto é conduzido facilmente para qualquer lugar), o que permitia a perpetuação dos mesmos políticos no poder.

O voto de cabresto continua a existir, mas assim como o burro, quem usa não percebe que usa, já se acostumou.
As técnicas de “encabrestamento” evoluíram com o passar dos tempos e vão se perpetuando, mantendo a população apenas como público, que bestializado, assisti aos desmandos políticos e ainda aplaude sem perceber o tamanho de suas perdas e, que ao manter-se preso a esse cabresto, não percebe que só a uma minoria está dando motivo para sorrir. Os municípios nos quais residimos continuam sendo chamados de curral, curral eleitoral, onde determinados deputados tem seu “mando político”.
Assistimos a um golpe assumido como golpe por aqueles que o fizeram, mas tem inocente (se é que esse termo seja o correto a ser aplicado), trabalhador assalariado, dizendo que quem defende a teoria do golpe são apenas os comunistas “petralhas”, de bandeira vermelha, que não trabalha e agora, inconformados, vão ter que trabalhar. Pois é, todos vão ter que trabalhar, no mínimo quatro horas a mais e ganhar a mesma coisa.
Vamos assistir a venda do Brasil a preço de Banana, como já assistimos em um passado não muito remoto com a venda da Vale, da Telebrás, da CSN, da RFFSA, dentro outras estatais e teve pobre que aplaudiu. Uso o termo pobre aqui não apenas no sentido de baixo poder de consumo, mas pobre de crítica, pobre de visão, pobre de liberdade de pensamento, pobre não emancipado preso ao cabresto, escravo das “verdades” de seu senhor.
Vamos assistir, como público, a aprovação da aposentadoria aos 65 anos (os que estão votando essa lei se aposentam com 8 anos), assistir à própria terceirização. O discurso é de modernização, mas se pararmos de assistir e ler um pouco mais vamos perceber que o trabalhador estará sendo submetido às regras trabalhistas do início da era industrial, mas lá não existia regras, era acordo, mas acordo unilateral, de uma só proposta, a do patrão.
É Lima Barreto! Continuamos público e um público que se tornou massa e toda massa é acéfala.
Me dói, me incomoda, me entristece, é uma soma de sentimentos desagradáveis, quando observo que estamos no século XXI, que já passamos por tantos momentos difíceis, que conseguimos uma constituição democrática, mas a sociedade não se democratizou, e hoje ignora (ou nega) nosso passado e clama pela ditadura, que defende escola amordaçada, sem crítica social, apenas reprodutiva do discurso oficial e diz ser escola sem partido, não consegue ver que ao pensar assim está apenas reforçando seu cabresto e negando aos seus filhos o direito de pensar criticamente, de enxergar além das aparências, de perceber e negar o cabresto que lhe tentarão impor.

Público não interfere, apenas assisti; às vezes se manifesta, xinga, mas não interfere, não faz história.
É chegada a hora de nos livrarmos dos cabrestos, das mordaças e começarmos a fazer história, a tomarmos as rédeas de nossas vidas e como povo emancipado deixarmos de ser público e apenas assistir e começar fazer valer nossa soberania.
Geraldo Bueno.

quinta-feira, 27 de março de 2014

FILÓSOFOS E A EDUCAÇAO 4 - GRAMSCI

Tenho lido e ouvido tanta babaquice a respeito da concepção de educação em Gramsci por parte de pessoas que nitidamente sequer leram qualquer capa de qualquer obra gramsciana, ou se leram não entenderam nada. Geralmente são fundamentalistas de direita que tem medo de ler qualquer coisa que seja de esquerda por medo de se de contaminar, como se fosse uma doença mortal. Mal sabem que a único "mal" que a leitura de Gramsci pode causar é abri-lhes os olhos e tirá-los da ignorância típica dos fundamentalistas.
Diante da quantidade, cada vez maior de babacas, com os quais me deparo proponho que veja esse vídeo e entenda um pouco melhor como Gramsci entende a educação e perceba que ele propõe uma educação emancipadora e não de alienação.
A propósito, esse vídeo faz parte de uma coleção que trata a concepção de educação de diversos filósofos, de diferentes tempos e encontra-se disponível em DVDs da TV Escola, em todas as escolas da rede pública estadual. Além dos DVDs há também uma coleção impressa na Biblioteca do professor intitulada "Os pensadores e a educação". Vale conferir, afinal um pouquinho mais de conhecimento não faz mal a ninguém e previne contra a "síndrome da babaquice".
  

domingo, 23 de março de 2014

Mais um poema de Thiago de Mello

Narciso Cego

Tudo o que de mim se perde
acrescenta-se ao que sou.
Contudo, me desconheço.
Pelas minhas cercanias
passeio — não me frequento.

Por sobre fonte erma e esquiva
flutua-me, íntegra, a face.
Mas nunca me vejo: e sigo
com face mal disfarçada.
Oh que amargo é o não poder
rosto a rosto contemplar
aquilo que ignoto sou;
distiguir até que ponto
sou eu mesmo que me levo
ou se um nume irrevelável
que (para ser) vem morar
comigo, dentro de mim,
mas me abandona se rolo
pelos declives do mundo.

Desfaço-me do que sonho:
faço-me sonho de alguém
oculto. Talvez um Deus
sonhe comigo, cobice
o que eu guardo e nunca usei.

Cego assim, não me decifro.
E o imaginar-me sonhado
não me completa: a ganância
de ser-me inteiro prossegue.
E pairo — pânico mudo —
entre o sonho e o sonhador.


Publicado no livro Narciso Cego; Seguido do Romance do Primogênito (1952). 

fonte: http://www.escritas.org/pt/poema/11993/narciso-cego - 23/03/2014 - 19:49


Estatuto do homem


Artigo 1
Fica decretado que agora vale a verdade, agora vale a vida e de mãos dadas marcharemos todos pela vida verdadeira;

Artigo 2
Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, tem direito a converter-se em manhãs de domingo;

Artigo 3
Fica decretado que a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra e que as janelas devem permanecer o dia inteiro abertas para o verde onde cresce a esperança;

Artigo 4
Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem, que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu; parágrafo único, o homem confiará no homem como um menino confia em outro menino;

Artigo 5
Fica decretado que os homens estão livres do julgo da mentira, nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem armadura de palavras, o homem se sentará a mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa;

Artigo 6
Fica estabelecida durante dez séculos a pratica sonhada por Isaías que o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora;

Artigo 7
Decreta e revogada, fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade, e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada da alma do povo;

Artigo 8
Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá a planta o milagre da flor;

Artigo 9
Fica permitido que o pão de cada dia que é do homem o sinal de seu suor, mas que sobretudo tenha sempre o quente sabor da ternura;

Artigo 10
Fica permitido a qualquer pessoa, qualquer hora da vida o urro do trai branco;

Artigo 11
Fica decretado por definição que o homem é o animal que ama, e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã;

Artigo 12
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com imensa begônia na lapela; parágrafo único, só uma coisa fica proibida, amar sem amor;

Artigo 13
Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar um sol das manhãs de todas, expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de tentar e a festa do dia que chegou;

Artigo Final
Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso da dor, a partir deste instante, a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.
Thiago de Mello
    Um bom texto para refletir nestes tempos de desespero em que se encontram alguns babacas que anseiam pelo retorno de um regime de exceção.  

terça-feira, 18 de março de 2014

De que modo os príncipes devem cumprir a sua palavra.

Que o nosso (des)governo leu Maquiavel não tenho dúvidas, pois o que ele fala não se escreve.

O PRÍNCIPE, DE MAQUIAVEL

XVIII. 

DE QUE MODO OS PRÍNCIPES DEVEM CUMPRIR A SUA PALAVRA

Todos sabem quão louvável é um príncipe ser fiel à sua palavra e proceder com integridade e não com astúcia; contudo, a experiência mostra que só nos nossos tempos fizeram grandes coisas aqueles príncipes que tiveram em pouca conta as promessas feitas e que, com astúcia, souberam transtornar as cabeças dos homens; e por fim superaram os que se fundaram na sua lealdade.
Deve saber-se que há dois modos de vencer um com as leis, outro com a força: o primeiro é próprio dos homens, o segundo dos animais; mas porque muitas vezes o primeiro não basta, convém recorrer ao segundo. Portanto é necessário a um príncipe que seja ao mesmo tempo homem e animal. Os antigos escritores ensinaram encobertamente isto mesmo aos príncipes, escrevendo que Aquiles e muitos outros príncipes antigos foram dados a educar a Quíron centauro para que os guardasse sob a sua disciplina. E ter por preceptor um ser, meio animal, meio homem, outra coisa não significa senão que um príncipe deve saber usar duma e doutra natureza e que uma sem a outra não é durável.
Achando-se, portanto, um príncipe na necessidade de saber proceder como animal, deve escolher a raposa e o leão, porque o leão não sabe defender-se dos laços, nem a raposa dos lobos. E preciso, portanto, ser raposa para conhecer os laços e leão para espantar os lobos. Os que tomam simplesmente a parte de leão não entendem palavra. Não pode, nem deve, portanto, um homem prudente guardar a palavra dada, quando o seu cumprimento se volte contra ele e quando já não existem as causas que o fizeram prometer. Não seria bom este preceito se todos os homens fossem bons; mas como são maus e em igual caso eles não cumpririam contigo, tu também não deves cumprir com eles. Nem nunca faltaram a um príncipe razões para colorir a sua falta à palavra. (grifo nosso) Disto se poderiam dar infinitos exemplos modernos e mostrar quantas pazes, quantas promessas ficaram írritas e nulas pela falta de palavra dos príncipes; aquele que melhor soube proceder como a raposa, melhor se houve. Mas é necessário saber bem colorir esta natureza e ser grande simulador e dissimulador: os homens são tão simples e obedecem tanto às necessidades presentes que quem engana achará sempre quem se deixe enganar.
Não posso resistir a contar um exemplo dentre os recentes. Alexandre VI não fez outra coisa nem pensou noutra coisa que não fosse enganar os homens e sempre encontrou objecto para poder fazê-lo; nem nunca existiu homem que afirmasse com maior eficácia e assegurasse uma coisa com mais juramentos e que menos a observasse; contudo os enganos saíram-lhe sempre ad votum, porque conhecia bem a arte de enganar.
Por conseguinte, não é necessário que um príncipe possua todas as qualidades mencionadas, mas convém que aparente tê-las. Atrever-me-ei a dizer antes que, tê-las e observá-las sempre, é prejudicial e que aparentar tê-las é útil: como parecer piedoso, fiel, humano, íntegro, religioso, etc., mas ter sempre o ânimo preparado para, na altura que convenha, tu poderes e saberes fazer o contrário.
Deve ter-se presente que um príncipe, e sobretudo um príncipe novo, não pode observar todas aquelas coisas pelas quais os homens têm fama de bons, tendo mesmo necessidade, para manter o Estado, de proceder contra a fé, contra a caridade, contra a humanidade, contra a religião. E preciso mesmo que tenha o ânimo disposto a mudar segundo o que lhe mandem os ventos e as variações da fortuna e, como acima disse, não se separar do bem podendo fazê-lo, mas saber entrar no mal se for necessário.
Deve ainda um príncipe ter grande cuidado em que não lhe saia da boca uma só coisa que não esteja cheia das cinco qualidades atrás ditas e que ao verem-no e ao ouvirem-no pareça todo piedade, todo fé, todo integridade, todo religião. E não há coisa mais necessária de aparentar que esta última qualidade. E que os homens universalmente julgam mais pelos olhos que pelas mãos, pois que a todos é dado ver, mas a poucos sentir. Todos vêem aquilo que tu pareces, poucos sentem o que és, e estes poucos não se atrevem a opor-se à opinião dos muitos que têm a majestade do Estado que os defenda; e nas acções de todos os homens e principalmente nas dos príncipes, das quais não se pode recorrer, se atende ao fim. Faça, pois um príncipe por vencer e por manter o seu Estado; os meios serão sempre julgados honrosos e de todos louvados. Porque o vulgo deixa-se sempre levar pela aparência e o sucesso das coisas; e no mundo não há senão vulgo e os poucos só têm lugar quando os muitos não têm em que apoiar-se. Há presentemente um príncipe, que não quero nomear1, que só prega paz e boa fé e é inimicíssimo duma e doutra; e se fôsse a observar uma e outra, muitas vezes lhe teria prejudicado a reputação ou o Estado.


1. Fernando, o católico, rei de Aragão.

fonte: http://www.arqnet.pt/portal/teoria/principe_cap18.html - 18/03/2014 - 09:56

sábado, 19 de janeiro de 2013

Lei 10639/03


Mensagem de vetoAltera a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira", e dá outras providências.
        O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:
        Art. 1o A Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, passa a vigorar acrescida dos seguintes arts. 26-A, 79-A e 79-B:
"Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira.
§ 1o O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.
§ 2o Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras.
§ 3o (VETADO)"
"Art. 79-A. (VETADO)"
"Art. 79-B. O calendário escolar incluirá o dia 20 de novembro como ‘Dia Nacional da Consciência Negra’."
        Art. 2o Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
        Brasília, 9 de janeiro de 2003; 182o da Independência e 115o da República.
LUIZ INÁCIO LULA DA SILVACristovam Ricardo Cavalcanti Buarque