“O Brasil não tem povo, tem público”.
É Lima Barreto! Já se passaram mais de um século e o que outrora observará continua valendo ainda hoje. Parece-me que nada mudou.
O autor da frase, Lima Barreto, nasceu em de maio de 1881 e morreu em janeiro de 1922 antes de completar 41 anos de vida.
Lima Barreto foi um grande crítico das injustiças sociais e das relações políticas características da república nascente, onde os “coronéis” mandavam e desmandavam, estavam acima da lei e o povo assistia, como público, a toda forma de exploração. O voto era de cabresto (referência ao burro, o animal, que pelo cabresto é conduzido facilmente para qualquer lugar), o que permitia a perpetuação dos mesmos políticos no poder.
O voto de cabresto continua a existir, mas assim como o burro, quem usa não percebe que usa, já se acostumou.
As técnicas de “encabrestamento” evoluíram com o passar dos tempos e vão se perpetuando, mantendo a população apenas como público, que bestializado, assisti aos desmandos políticos e ainda aplaude sem perceber o tamanho de suas perdas e, que ao manter-se preso a esse cabresto, não percebe que só a uma minoria está dando motivo para sorrir. Os municípios nos quais residimos continuam sendo chamados de curral, curral eleitoral, onde determinados deputados tem seu “mando político”.
Assistimos a um golpe assumido como golpe por aqueles que o fizeram, mas tem inocente (se é que esse termo seja o correto a ser aplicado), trabalhador assalariado, dizendo que quem defende a teoria do golpe são apenas os comunistas “petralhas”, de bandeira vermelha, que não trabalha e agora, inconformados, vão ter que trabalhar. Pois é, todos vão ter que trabalhar, no mínimo quatro horas a mais e ganhar a mesma coisa.
Vamos assistir a venda do Brasil a preço de Banana, como já assistimos em um passado não muito remoto com a venda da Vale, da Telebrás, da CSN, da RFFSA, dentro outras estatais e teve pobre que aplaudiu. Uso o termo pobre aqui não apenas no sentido de baixo poder de consumo, mas pobre de crítica, pobre de visão, pobre de liberdade de pensamento, pobre não emancipado preso ao cabresto, escravo das “verdades” de seu senhor.
Vamos assistir, como público, a aprovação da aposentadoria aos 65 anos (os que estão votando essa lei se aposentam com 8 anos), assistir à própria terceirização. O discurso é de modernização, mas se pararmos de assistir e ler um pouco mais vamos perceber que o trabalhador estará sendo submetido às regras trabalhistas do início da era industrial, mas lá não existia regras, era acordo, mas acordo unilateral, de uma só proposta, a do patrão.
É Lima Barreto! Continuamos público e um público que se tornou massa e toda massa é acéfala.
Me dói, me incomoda, me entristece, é uma soma de sentimentos desagradáveis, quando observo que estamos no século XXI, que já passamos por tantos momentos difíceis, que conseguimos uma constituição democrática, mas a sociedade não se democratizou, e hoje ignora (ou nega) nosso passado e clama pela ditadura, que defende escola amordaçada, sem crítica social, apenas reprodutiva do discurso oficial e diz ser escola sem partido, não consegue ver que ao pensar assim está apenas reforçando seu cabresto e negando aos seus filhos o direito de pensar criticamente, de enxergar além das aparências, de perceber e negar o cabresto que lhe tentarão impor.
Público não interfere, apenas assisti; às vezes se manifesta, xinga, mas não interfere, não faz história.
É chegada a hora de nos livrarmos dos cabrestos, das mordaças e começarmos a fazer história, a tomarmos as rédeas de nossas vidas e como povo emancipado deixarmos de ser público e apenas assistir e começar fazer valer nossa soberania.
Geraldo Bueno.
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